Na continuação do texto de ontem, temos então à Direita:
Oligarca (000): Por definição significa aquele que defende que o poder deve estar concentrado num pequeno número de indivíduos. Na prática, para que tal aconteça eficazmente, os oligarcas defendem genericamente um Estado que intervenha fortemente na sociedade, regulando a conduta pessoal, implementando um sistema fiscal que favorece os que mais poder possuem, e apoiando as empresas mais poderosas. O objectivo é que haja uma consonância de objectivos entre aqueles que detêm o poder social, o poder político e o poder económico: o sistema ideal do ponto de vista oligarca é simultaneamente teocrático, autocrata e plutocrata. Note-se que esta descrição de uma sistema oligarca aplica-se quer aos Estados habitualmente designados por fascistas, como a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, ou o Chile de Pinochet, quer aos Estados considerados comunistas, como o foram a União Soviética e a Alemanha de Leste (ou hoje a Coreia do Norte). Nestes Estados ditos comunistas não existiam impostos directos, na prática o Estado simplesmente retinha parte dos rendimentos, ou seja parte do resultado do trabalho de todos. E quem beneficiava desta riqueza de modo desproporcionado eram os que estavam à frente do sistema, os que estavam no poder. E entre as empresas (estatais) eram as mais poderosas, as que mais peso tinham no sistema económico, que mais beneficiavam de tratamento preferencial. Portanto, quando se esquece os rótulos, chega-se a conclusão que os Estados ditos comunistas não eram mais do que Estados fascistas em que os objectivos de controlo da sociedade e benefício dos mais poderosos foram atingidos por meios distintos. Revolucionários ou conservadores, os oligarcas têm em comum a ambição de uma sociedade controlada por uma minoria privilegiada onde o poder se concentra. Parece-me óbvio que os ideais oligarcas necessitam de um Estado que não hesita em exercer a violência sobre os seus cidadãos, e de outros países, para atingir os seus objectivos. Não existem oligarcas pacifistas. De igual modo é claramente um contra-senso que um oligarca apoie a Democracia Directa. Esta dá voz aos menos poderosos, e incentiva a pluralidade e diversidade de opiniões e comportamentos. Pelo contrário, os oligarcas tenderão a apoiar sistemas políticos em que o poder decisório está efectivamente concentrado em poucas pessoas, desde ditaduras a democracias apenas em nome, em que a manipulação pela elite no poder é prática corrente. Os oligarcas são os maiores inimigos da Democracia Directa. Os oligarcas têm várias outras designações, desde totalitários quando apoiam abertamente a instauração de ditaduras em que o poder é exercido de forma absoluta e aberta, a neo-conservadores quando preferem que o poder seja exercido de modo mais subtil, manipulando eleições que tentam apresentar como livres. Na prática, aqueles que se consideram conservadores são nada mais que uma versão menos extrema e manipuladora de oligarcas.
Neo-liberal (100): Difere dos oligarcas na medida em que defende que o Estado não deve tentar regular a conduta pessoal. Terão também mais dificuldade em apoiar um Estado que usa da violência de modo pro-activo para apoiar os seus objectivos. No entanto, genericamente não hesitarão em apoiar o recurso à violência por parte do Estado para defender os que mais poder possuem, em particular para defender o direito à propriedade privada. Não acho assim que haja neo-liberais pacifistas. Uma visão extrema do neo-liberalismo existe sob a forma de anarco-capitalismo, que nos EUA é conhecida por libertarianismo, apesar de na Europa libertarianismo ser utilizado usualmente como sinónimo de anarquismo, mais especificamente anarco-sindicalismo. No que respeita ao exercício da violência, há anarco-capitalistas que preferem que o direito do exercício da violência seja retirado ao Estado e dado aos cidadãos, ou seja poderá haver anarco-capitalistas que defendem um pacifismo de Estado. Os objectivos económicos e sociais dos neo-liberais (e também dos anarco-capitalistas, na prática) são a manutenção e concentração do poder económico e social num número reduzido de indivíduos, sendo portanto perigoso para esses objectivos apoiar mecanismos de Democracia Directa, que dão voz aos que menos poder têm. Os neo-liberais são talvez os maiores defensores do actual sistema de Democracia Representativa, pois maximiza a liberdade de comportamento e poder de influência dos que já possuem poder económico e social, ao mesmo tempo que ilude os que não têm poder fazendo crer de que as suas vozes são ouvidas, e que também eles podem ter acesso a uma posição de poder. Portanto, os neo-liberais poderão eventualmente concordar com a inclusão de mecanismos de Democracia Directa no sistema político, mas apenas na condição de serem ineficazes, não diminuindo o seu poder decisório e de influência, com o único objectivo de reforçar a ilusão de participação. O paradigma são as consultas não-vinculativas aos cidadãos. Por uma questão de princípio, os anarco-capitalistas estarão mais predispostos a apoiar mecanismos de Democracia Directa, mas desde que o poder decisório dos cidadãos seja restrito às questões que os anarco-capitalistas não consideram fundamentais.
Paleo-conservador (010): Difere dos oligarcas ao opor-se à concentração do poder económico. No entanto apoia a intervenção do Estado na conduta pessoal, e prefere que a taxação seja mínima. É (era) uma posição política muito encontrada no espaço rural dos Estados Unidos, onde os agricultores, usualmente conservadores do ponto de vista social, opõem-se às grandes empresas agro-pecuárias, mas cultivam um individualismo que os leva a preferir uma taxação mínima. Com os objectivos de imposição de regras de conduta pessoal e defesa da propriedade privada em mente, os paleo-conservadores tanto podem apoiar a existência de um Estado com o direito de exercício da violência, preferindo no entanto Estados o mais devolutos possível a nível local, como defender a inexistência de Estado, estando o exercício da violência necessária para atingir os objectivos mencionados a cargo de grupos auto-organizados de cidadãos. Poderá haver paleo-conservadores pacifistas, que se opõem ao uso da violência para atingir os seus objectivos. Os paleo-conservadores genericamente atribuem muita importância ao conceito de hierarquia e autoridade moral, donde por princípio terão pouca inclinação para apoiar uma maior intervenção directa dos cidadãos nas questões que os afectam. Seria inverter o que para eles é a ordem natural. No entanto, por razões práticas poderão apoiar a Democracia Directa se tal for um modo de impedir que os economicamente mais poderosos possam continuar a exercer uma tão grande influência no processo de tomada de decisões numa Democracia Representativa, da qual desconfiam. Os paleo-conservadores podem considerar-se os genuínos populistas de direita.
Social-conservador (001): Difere dos oligarcas ao defender um sistema fiscal que favoreça os que menos poder possuem. Por outro lado, apoia a intervenção do Estado na conduta pessoal, e não se opõe a que o poder económico esteja concentrado. São oligarcas com uma preocupação social, mas essencialmente assistencialista: há uma hierarquia que é necessário respeitar; a maioria terá sempre menos poder; mas não precisa de sofrer, é possível dar-lhe uma vida digna baseada no trabalho. São exemplo de social-conservadoras muitas das correntes políticas inspiradas em religiões organizadas, como por exemplo a Democracia Cristã. Países em que uma versão extrema de social-conservadorismo é implementada são o Irão, a Arábia Saudita e os pequenos países do Golfo Pérsico. Os social-conservadores podem apoiar um Estado extremamente repressivo, e genericamente aceitam o uso da violência pelo Estado para atingir os seus objectivos. Não acho que haja social-conservadores pacifistas. Dada a sua visão hierárquica, e necessidade de manter o controlo da sociedade, protegendo os que mais poder económico e social possuem, os social-conservadores estarão muito pouco disponíveis para aceitar mecanismos de Democracia Directa.
Publicado por DD em fevereiro 26, 2004 07:28 PM